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Sem Querer Quero

Hoje estou cansada...amanhã é outro dia!

03
Mar20

A primeira imagem que me vem à cabeça são os chãos onde já me estendi ao comprido. Desde soalho flutuante a imitar sei lá o quê; a azulejos brancos, a azulejos mais acinzentados, ao chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, a divisão entre cada azulejo ser tão grande que me magoava os joelhos...you named. Apanhei de todo o tipo de chão.
E também me aventurei, em pequena, a usar joalheiros e andar por alcatrão de gatas com todos os carros a apitar - queria ir ter com a minha vizinha (que era da minha idade). Também fui "apanhar" batatas para o pasto, onde o meu avô as colocava propositadamente ao pé de mim, para eu ter o gosto de as colocar no balde.
Imaginem-se numa cadeira de rodas desde sempre. 
(Imaginem só! Porque não quero aqui ninguém a "sofrer dos mesmos males" do que eu...)
Acreditem que, de entre os dissabores que isso traz, também tive uma infância muito mas mesmo muito feliz!

Mas, hoje, tal como antigamente ainda se ouve: "Ah, estar sentado é mais confortável do que estar todo um dia em pé, de certeza!" dizem muitas pessoas (principalmente as que passam a vida em pé, ora pois claro). Pois, eu não sei - não faço ideia nem nunca experimentei estar um dia todo de pé (mesmo que quisesse, vocês entendem que não dá não é?) Mas, ocorre-me dizer que tudo o que é feito em excesso corre mal: incluindo estar sentada muitas horas...
Imaginem mais uma vez o que é andar numa cadeira de rodas, desde sempre. "Ah, já deves estar mais do que habituada". É isso, vamos começar por aí.
Não andar implica várias coisas. Imaginem, portanto, que além de estarem numa cadeira de rodas - muitas vezes - existem coisas que estão em locais não compatíveis com a vossa altura...hum...até aqui não me parece muito mau. As casas definitivamente não foram feitas para miniaturas de gente (e se a minha mãe também é baixinha) o que fazer? Acomodar-me e pôr as coisas a jeito, é o que se pode fazer.
Agora vamos a outro cenário: agarro-me ao balcão e levanto-me para desligar o fogão e encosto-me, à cadeira, devidamente travada e...pumba. Vou a sentar-me, ela anda para trás e eu, caio.
Outro cenário, estou a cortar cebolas e uma caí-me; há, claramente que pedir "juntem-me isto por favor". Isto para dizer que podia descrever muitas coisas mas...as primeiras quedas, os primeiros ajuntar de cebolas e repolhos, tudo bem, os primeiros "preciso de ir à casa de banho", também é tranquilo!
Mas, imaginem anos disto?
"Estou cansada, não consigo ter uma vida normal por causa de ti", ouves.
E depois quando segues a tua vida a pessoa é contra porque prefere ter-te debaixo do braço para hastear a bandeira: "Eu sou uma guerreira! Tanto que a ajudo...Vejam lá, é para as idas à casa de banho, é para vestir é para tudo....como fará uma vida sem mim?!"  há sem dúvida formas de o fazer mas...esteja eu com quem estiver ouço outras coisas, como: "Não posso ir deitar-me e ficares aqui, podes precisar de ajuda, dependes de mim", "Estou cansado, já não consigo sozinho(a)!" Tranquilo. Vamos procurar ajuda especializada, penso! 
Mas, não há a porra da ajuda necessária...e é ir vivendo assim. Ouvindo, engolindo, entendendo o desespero dos outros, perante nós, mas termos de engolir o nosso próprio desespero. 
É irmos trabalhar - e quando não nos conseguirmos levantar da cama para cumprir obrigações sermos olhados de lado, bem como ficarmos prejudicados devido às "n" consultas a que temos de ir - é chegar a casa novamente e ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiamos ao chão - eu e os legumes. Mas 90% das vezes cai-se.
Hoje também foi dia de trabalho mas...ao chegar a casa não vou ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiam ao chão e que eu não caia também!
Hoje vou descansar. Descansar das quedas, da descrença no ser humano e de todo um sistema...Hoje sinto o frio de um soalho flutuante a imitar sei lá o quê; sinto o frio dos azulejos brancos, dos azulejos mais acinzentados onde já caí, sinto o padrão do chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, como se fosse hoje. A divisão entre cada azulejo continua a ser tão grande quanto a que me magoava os joelhos...como se tivesse caído agora!
Ontem caí...e perdi a conta à quantidade de vezes que isso já me aconteceu. E, se há dias em que realmente me acostumo a tais coisas, hoje estou completamente cansada!

amir disability.jpg

Amanhã é outro dia...

 

Está a ser duro...

29
Fev20

Psicoterapia.jpg

A vida está a ser dura, muito dura! 
...Por uma razão ou por outra, a psicoterapia também está a ser dura. Mesmo dura! Certo é que, no meu entender as duas coisas estão inteiramente relacionadas...
Se dias há que saio de lá a sorrir, por achar que finalmente, tudo está no caminho certo, outros há que saio com a sensação de retrocesso, inchada de chorar e de mal com a vida. Principalmente de mal comigo e, só depois, com os outros!
O mesmo me acontece com as minhas obrigações diárias: se há dias em que, mesmo com tudo a ruir, eu sorrio. Outros há que mesmo não chorando todas as mini-complicações do quotidiano me parecem descabidas e sem sentido - e me enervam!
...Simplificar a vida era tão bom creio até que essa seria a chave - para todos os problemas do mundo. Mas não há como fazer isso de forma unilateral...
Melhor dizendo: se dúvidas eu tivesse relativamente a acreditar que existe gente que veio ao mundo apenas e só para, com as suas frustrações e inseguranças, infernizar a vida alheia...hoje, não sinto uma réstia - por mínima que seja - de dúvida! Acredito mesmo, que sim, que há gente que nasceu para isso!
...E é para poder lidar com essas pessoas e comigo que faço terapia. 
Sim, eu sei, que no geral, todos nos sentimos um pouco assim, às vezes, no que diz respeito à vida...
...Mas cada um de nós, que se predispõe à psicoterapia, predispõe-se a mergulhar fundo nas suas dores, nas suas mágoas, nas suas falhas e sucessos seja enquanto filha, irmã, namorada, prima, sobrinha, neta, nora, cunhada, amiga, e enquanto ser com vida pessoal e profissional...e por aí fora. Predispõe-se a mergulhar numa viagem ao seu passado e presente...(o futuro está ainda lá longe!) Aceita encarar tudo de frente para melhorar a sua vida e ajudar aqueles que o rodeiam mas, caraças, não deixa de ser um processo extremamente doloroso.
E...quinta-feira tive uma sessão depois do trabalho. É difícil e seria injusto até descrever o quanto me custou!
Sexta, é que, foi impossível levantar-me: tinha dores no corpo e não tinha sequer forças para o manter na posição do costume: (sentada). Sentia-me sem força anímica, corporal e emocional...e ainda sinto! Tenho dormido mal e, descansar como deve ser isso...tem sido extremamente difícil! Sinto dores! Falta de força (a vários níveis)!
Mas...(não propriamente a vida) as obrigações têm de ser cumpridas! Há sempre algo que temos de fazer! Não porque sejamos, claramente, imprescindíveis num dado lugar mas, essencialmente, porque temos contas a pagar e "deveres" enquanto cidadãos envoltos numa sociedade!
Ando a falhar com certas obrigações e a exigir muito de mim noutras que deviam ser divididas!
É assim a minha vida. Ou oito ou oitenta mil...e é assim que, por enquanto, vou conseguindo levar o barco.

 

...Seria tão melhor se todos lutássemos por viver e não apenas para sobreviver!
Essa coisa de que tudo o que precisamos para sermos felizes está, apenas e só, dentro de nós...hum...isso cheiram-me a conversas de...(é melhor não dizer)!

...Já basta esconder o que sinto dia após dia após e só desabar dentro das quatro paredes do psicoterapeuta, deixem-me deitar cá para fora uma parte do que me preenche intimamente!

 

Continuo a comover-me com quem não tem tecto, nem comida, nem roupa, nem água, nem luz, nem uma cama. Continuo a acreditar que estar entre a vida e a morte é uma merda mas...também tenho sentimentos para além da compaixão.

Nunca vos aconteceu?

21
Jan20

Nunca vos aconteceu sentirem que dão tanto de vós que estão (também por isso) exaustos, cansados, desgastados?...Eu sinto-me assim. Levanto-me para cumprir obrigações (e hoje em dia quem não as cumpre é olhado de lado), para poder seguir com a vida, ter dinheiro no banco para pagar as contas mas...a minha vontade era sair por aí, sem rumo...só ir, sem saber a data de regresso ou sequer se regresso.

A minha vontade é que todos percebêssemos que existem limites, limites que se se ultrapassam o corpo cede, os olhos cansam-se...a alma fica dorida. E que os limites importam, para todos nós, sejam eles físicos ou psíquicos. 

Será que quando cumprimos obrigações estamos (também) a viver ou (apenas) a sobreviver?