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Sem Querer Quero

Uma vida...sem sonhos...


Tenho estado em casa como já vos disse (por razões que agora não vêm ao caso).

Que eu saiba não tenho coronavirus, nem Covid-19, muito menos tenho estado em contacto com grupos de risco ou pessoas que possam a vir a desenvolver tal vírus (mas nunca se sabe)...nem é disso que estou a recuperar. Nesse aspecto, e por enquanto, tudo tranquilo.



Acho, no entanto, importante referir que: durante toda a minha vida sempre fui acompanhada - numas alturas mais e noutras menos - de perto por: enfermeiros, médicos de várias especialidades, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, ortopedistas, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas ou, agora mais recentemente, até por um psicoterapeuta e uma equipa de apoio domiciliário.

E se, já me aconteceu, ter depositado grande parte da minha insegurança, frustração, tristeza, do meu medo diria até pânico nesses profissionais - que nada mais são do que pessoas, como eu. Também já depositei neles (e nos bombeiros) toda a minha esperança (no meu e) num mundo, numa vida, melhor para todos! 

E, como em tudo na vida...se há profissionais e áreas da medicina que me marcaram pela positiva outros há que me me marcaram pela negativa! Acordam às vezes mal dispostos e, provavelmente, vêm em nós o elo mais fraco. Não somos. Temos muitos defeitos mas a fraqueza não é um deles. No entanto, acredito que, tal como eu dou, (quase) todos tenham dado o seu melhor nas diferentes alturas da vida em que nos cruzámos por aí!

...O difícil de ouvir é: "um dia, possivelmente, terás de ser institucionalizada". Matei alguém? Para presos há reabilitação e, para mim não? Pergunto frontalmente!

Ouvi também noutro contexto e sobre outro assunto: "isso que há anos desejas não acontecerá" ou "Já não és aquela menina de 15 anos (...) Tens de desistir desse sonho". Dez anos passaram entre cada uma dessas frases, proferidas por duas pessoas tão distintas e em lugares tão distantes neste Mundo imenso. Uma delas foi dita por estes dias...e doí. Tanto ou mais do que doeu há 10 anos atrás.

 

Sinto que querem deixar os meus sonhos morrer para eu poder viver...

Sei que são irrealistas mas...

Eu não sei viver sem sonhos...

...Numa realidade destas...tão dura. 

...Eram, especificamente, estes sonhos que me faziam avançar, avançar e lutar por ser melhor, por ter melhores condições, por evoluir e crescer. 

...A realidade nua e crua...

...A realidade sem esperança...

Nunca a vivi!

Eram os meus sonhos os meus únicos apoios, sem eles sou pouco ou nada...

...Num Portugal onde pouco ou quase nada há, para pessoas como nós, como eu. 

...Só sonhos...

...Que tenho de deixar morrer!

E eu assim não sei viver...

 

Será que um braço chega para me apoiar?

Estou a Cuidar-(me)

Estou de baixa desde o dia 4 de Março e segundo o que me parece é para continuar...agora até quando não sei! Talvez tudo passe rápido, talvez não!
Peço apenas a quem me lê que se cuide física e psiquicamente - não só neste período mais complicado mas - sempre. É o que eu estou a tentar fazer. Cuidar-me. Cuidar-me para além de julgamentos, criticas gratuitas ou olhares desconfiados do "Mundo" em geral - aquele Mundo que ME/NOS rodeia. Cuidar-me em primeiro lugar. Sem pensar se vou ter dinheiro para tudo mas...a pensar, sobretudo, que se não tiver saúde não preciso de dinheiro para nada!

 

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio nos aproximou. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, a união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora. Milhões de desesperados: homens, mulheres, criancinhas, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que podem me ouvir eu digo: não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. Sei que os homens morrem, mas a liberdade não perecerá jamais.

Charles Chaplin

 

Hoje estou cansada...amanhã é outro dia!

A primeira imagem que me vem à cabeça são os chãos onde já me estendi ao comprido. Desde soalho flutuante a imitar sei lá o quê; a azulejos brancos, a azulejos mais acinzentados, ao chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, a divisão entre cada azulejo ser tão grande que me magoava os joelhos...you named. Apanhei de todo o tipo de chão.
E também me aventurei, em pequena, a usar joalheiros e andar por alcatrão de gatas com todos os carros a apitar - queria ir ter com a minha vizinha (que era da minha idade). Também fui "apanhar" batatas para o pasto, onde o meu avô as colocava propositadamente ao pé de mim, para eu ter o gosto de as colocar no balde.
Imaginem-se numa cadeira de rodas desde sempre. 
(Imaginem só! Porque não quero aqui ninguém a "sofrer dos mesmos males" do que eu...)
Acreditem que, de entre os dissabores que isso traz, também tive uma infância muito mas mesmo muito feliz!

Mas, hoje, tal como antigamente ainda se ouve: "Ah, estar sentado é mais confortável do que estar todo um dia em pé, de certeza!" dizem muitas pessoas (principalmente as que passam a vida em pé, ora pois claro). Pois, eu não sei - não faço ideia nem nunca experimentei estar um dia todo de pé (mesmo que quisesse, vocês entendem que não dá não é?) Mas, ocorre-me dizer que tudo o que é feito em excesso corre mal: incluindo estar sentada muitas horas...
Imaginem mais uma vez o que é andar numa cadeira de rodas, desde sempre. "Ah, já deves estar mais do que habituada". É isso, vamos começar por aí.
Não andar implica várias coisas. Imaginem, portanto, que além de estarem numa cadeira de rodas - muitas vezes - existem coisas que estão em locais não compatíveis com a vossa altura...hum...até aqui não me parece muito mau. As casas definitivamente não foram feitas para miniaturas de gente (e se a minha mãe também é baixinha) o que fazer? Acomodar-me e pôr as coisas a jeito, é o que se pode fazer.
Agora vamos a outro cenário: agarro-me ao balcão e levanto-me para desligar o fogão e encosto-me, à cadeira, devidamente travada e...pumba. Vou a sentar-me, ela anda para trás e eu, caio.
Outro cenário, estou a cortar cebolas e uma caí-me; há, claramente que pedir "juntem-me isto por favor". Isto para dizer que podia descrever muitas coisas mas...as primeiras quedas, os primeiros ajuntar de cebolas e repolhos, tudo bem, os primeiros "preciso de ir à casa de banho", também é tranquilo!
Mas, imaginem anos disto?
"Estou cansada, não consigo ter uma vida normal por causa de ti", ouves.
E depois quando segues a tua vida a pessoa é contra porque prefere ter-te debaixo do braço para hastear a bandeira: "Eu sou uma guerreira! Tanto que a ajudo...Vejam lá, é para as idas à casa de banho, é para vestir é para tudo....como fará uma vida sem mim?!"  há sem dúvida formas de o fazer mas...esteja eu com quem estiver ouço outras coisas, como: "Não posso ir deitar-me e ficares aqui, podes precisar de ajuda, dependes de mim", "Estou cansado, já não consigo sozinho(a)!" Tranquilo. Vamos procurar ajuda especializada, penso! 
Mas, não há a porra da ajuda necessária...e é ir vivendo assim. Ouvindo, engolindo, entendendo o desespero dos outros, perante nós, mas termos de engolir o nosso próprio desespero. 
É irmos trabalhar - e quando não nos conseguirmos levantar da cama para cumprir obrigações sermos olhados de lado, bem como ficarmos prejudicados devido às "n" consultas a que temos de ir - é chegar a casa novamente e ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiamos ao chão - eu e os legumes. Mas 90% das vezes cai-se.
Hoje também foi dia de trabalho mas...ao chegar a casa não vou ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiam ao chão e que eu não caia também!
Hoje vou descansar. Descansar das quedas, da descrença no ser humano e de todo um sistema...Hoje sinto o frio de um soalho flutuante a imitar sei lá o quê; sinto o frio dos azulejos brancos, dos azulejos mais acinzentados onde já caí, sinto o padrão do chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, como se fosse hoje. A divisão entre cada azulejo continua a ser tão grande quanto a que me magoava os joelhos...como se tivesse caído agora!
Ontem caí...e perdi a conta à quantidade de vezes que isso já me aconteceu. E, se há dias em que realmente me acostumo a tais coisas, hoje estou completamente cansada!

amir disability.jpg

Amanhã é outro dia...

 

Está a ser duro...

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A vida está a ser dura, muito dura! 
...Por uma razão ou por outra, a psicoterapia também está a ser dura. Mesmo dura! Certo é que, no meu entender as duas coisas estão inteiramente relacionadas...
Se dias há que saio de lá a sorrir, por achar que finalmente, tudo está no caminho certo, outros há que saio com a sensação de retrocesso, inchada de chorar e de mal com a vida. Principalmente de mal comigo e, só depois, com os outros!
O mesmo me acontece com as minhas obrigações diárias: se há dias em que, mesmo com tudo a ruir, eu sorrio. Outros há que mesmo não chorando todas as mini-complicações do quotidiano me parecem descabidas e sem sentido - e me enervam!
...Simplificar a vida era tão bom creio até que essa seria a chave - para todos os problemas do mundo. Mas não há como fazer isso de forma unilateral...
Melhor dizendo: se dúvidas eu tivesse relativamente a acreditar que existe gente que veio ao mundo apenas e só para, com as suas frustrações e inseguranças, infernizar a vida alheia...hoje, não sinto uma réstia - por mínima que seja - de dúvida! Acredito mesmo, que sim, que há gente que nasceu para isso!
...E é para poder lidar com essas pessoas e comigo que faço terapia. 
Sim, eu sei, que no geral, todos nos sentimos um pouco assim, às vezes, no que diz respeito à vida...
...Mas cada um de nós, que se predispõe à psicoterapia, predispõe-se a mergulhar fundo nas suas dores, nas suas mágoas, nas suas falhas e sucessos seja enquanto filha, irmã, namorada, prima, sobrinha, neta, nora, cunhada, amiga, e enquanto ser com vida pessoal e profissional...e por aí fora. Predispõe-se a mergulhar numa viagem ao seu passado e presente...(o futuro está ainda lá longe!) Aceita encarar tudo de frente para melhorar a sua vida e ajudar aqueles que o rodeiam mas, caraças, não deixa de ser um processo extremamente doloroso.
E...quinta-feira tive uma sessão depois do trabalho. É difícil e seria injusto até descrever o quanto me custou!
Sexta, é que, foi impossível levantar-me: tinha dores no corpo e não tinha sequer forças para o manter na posição do costume: (sentada). Sentia-me sem força anímica, corporal e emocional...e ainda sinto! Tenho dormido mal e, descansar como deve ser isso...tem sido extremamente difícil! Sinto dores! Falta de força (a vários níveis)!
Mas...(não propriamente a vida) as obrigações têm de ser cumpridas! Há sempre algo que temos de fazer! Não porque sejamos, claramente, imprescindíveis num dado lugar mas, essencialmente, porque temos contas a pagar e "deveres" enquanto cidadãos envoltos numa sociedade!
Ando a falhar com certas obrigações e a exigir muito de mim noutras que deviam ser divididas!
É assim a minha vida. Ou oito ou oitenta mil...e é assim que, por enquanto, vou conseguindo levar o barco.

 

...Seria tão melhor se todos lutássemos por viver e não apenas para sobreviver!
Essa coisa de que tudo o que precisamos para sermos felizes está, apenas e só, dentro de nós...hum...isso cheiram-me a conversas de...(é melhor não dizer)!

...Já basta esconder o que sinto dia após dia após e só desabar dentro das quatro paredes do psicoterapeuta, deixem-me deitar cá para fora uma parte do que me preenche intimamente!

 

Continuo a comover-me com quem não tem tecto, nem comida, nem roupa, nem água, nem luz, nem uma cama. Continuo a acreditar que estar entre a vida e a morte é uma merda mas...também tenho sentimentos para além da compaixão.

Estado de sobrevivência...

Chegando ao meu limite, como já tinha referido aqui, pedi então ajuda. E o meu limite não se trata simplesmente de estar muito exausta a nível físico mas, mais importante que isso, trata-se de ter a minha parte emocional e psíquica completamente arrebentada. Acreditem que eu aguento bastante, sou persistente, mas...cheguei ao limite daquilo que consigo aguentar sozinha. Procurei um psicoterapeuta.

Ele tem sido o amigo que eu precisava. Mas, foi franco comigo: não consigo ajudar-te emocionalmente enquanto não te tirar do estado de sobrevivência em que vives. É duro, mas está a fazer tudo o que pode (acredito) para me ajudar...

A minha corrida incessante...

Acabo de me aperceber que sou um ser estranho. Nos blogs gosto da sensação a novo, a páginas brancas para escrevinhar dia após dia mas na vida isso assusta-me! Assusta-me ver os dias a passar e eu a não os conseguir pintar, escrevinhar (como se escrevinham nos novos livros em primeiro dia de aulas) da forma que eu quero, quiçá até que eu gostaria. Custa-me ver que a vida é uma sucessão de lembretes do género: "nem tudo pode ser (sempre) como tu queres" que a própria trata de me atirar às ventas mal tem oportunidade. Acabo de me aperceber que sou um ser que corre incessantemente em busca de coisas que, às vezes, corre tanto tanto... e mesmo assim nem sabe que "coisas" são essas que tanto procura!

Ou serão tão básicas que toda a gente devia ter direito a elas sem necessitar de pedir?