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Sem Querer Quero

Uma vida...sem sonhos...

17
Mar20

Tenho estado em casa como já vos disse (por razões que agora não vêm ao caso).

Que eu saiba não tenho coronavirus, nem Covid-19, muito menos tenho estado em contacto com grupos de risco ou pessoas que possam a vir a desenvolver tal vírus (mas nunca se sabe)...nem é disso que estou a recuperar. Nesse aspecto, e por enquanto, tudo tranquilo.



Acho, no entanto, importante referir que: durante toda a minha vida sempre fui acompanhada - numas alturas mais e noutras menos - de perto por: enfermeiros, médicos de várias especialidades, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, ortopedistas, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas ou, agora mais recentemente, até por um psicoterapeuta e uma equipa de apoio domiciliário.

E se, já me aconteceu, ter depositado grande parte da minha insegurança, frustração, tristeza, do meu medo diria até pânico nesses profissionais - que nada mais são do que pessoas, como eu. Também já depositei neles (e nos bombeiros) toda a minha esperança (no meu e) num mundo, numa vida, melhor para todos! 

E, como em tudo na vida...se há profissionais e áreas da medicina que me marcaram pela positiva outros há que me me marcaram pela negativa! Acordam às vezes mal dispostos e, provavelmente, vêm em nós o elo mais fraco. Não somos. Temos muitos defeitos mas a fraqueza não é um deles. No entanto, acredito que, tal como eu dou, (quase) todos tenham dado o seu melhor nas diferentes alturas da vida em que nos cruzámos por aí!

...O difícil de ouvir é: "um dia, possivelmente, terás de ser institucionalizada". Matei alguém? Para presos há reabilitação e, para mim não? Pergunto frontalmente!

Ouvi também noutro contexto e sobre outro assunto: "isso que há anos desejas não acontecerá" ou "Já não és aquela menina de 15 anos (...) Tens de desistir desse sonho". Dez anos passaram entre cada uma dessas frases, proferidas por duas pessoas tão distintas e em lugares tão distantes neste Mundo imenso. Uma delas foi dita por estes dias...e doí. Tanto ou mais do que doeu há 10 anos atrás.

 

Sinto que querem deixar os meus sonhos morrer para eu poder viver...

Sei que são irrealistas mas...

Eu não sei viver sem sonhos...

...Numa realidade destas...tão dura. 

...Eram, especificamente, estes sonhos que me faziam avançar, avançar e lutar por ser melhor, por ter melhores condições, por evoluir e crescer. 

...A realidade nua e crua...

...A realidade sem esperança...

Nunca a vivi!

Eram os meus sonhos os meus únicos apoios, sem eles sou pouco ou nada...

...Num Portugal onde pouco ou quase nada há, para pessoas como nós, como eu. 

...Só sonhos...

...Que tenho de deixar morrer!

E eu assim não sei viver...

 

Será que um braço chega para me apoiar?

Hoje estou cansada...amanhã é outro dia!

03
Mar20

A primeira imagem que me vem à cabeça são os chãos onde já me estendi ao comprido. Desde soalho flutuante a imitar sei lá o quê; a azulejos brancos, a azulejos mais acinzentados, ao chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, a divisão entre cada azulejo ser tão grande que me magoava os joelhos...you named. Apanhei de todo o tipo de chão.
E também me aventurei, em pequena, a usar joalheiros e andar por alcatrão de gatas com todos os carros a apitar - queria ir ter com a minha vizinha (que era da minha idade). Também fui "apanhar" batatas para o pasto, onde o meu avô as colocava propositadamente ao pé de mim, para eu ter o gosto de as colocar no balde.
Imaginem-se numa cadeira de rodas desde sempre. 
(Imaginem só! Porque não quero aqui ninguém a "sofrer dos mesmos males" do que eu...)
Acreditem que, de entre os dissabores que isso traz, também tive uma infância muito mas mesmo muito feliz!

Mas, hoje, tal como antigamente ainda se ouve: "Ah, estar sentado é mais confortável do que estar todo um dia em pé, de certeza!" dizem muitas pessoas (principalmente as que passam a vida em pé, ora pois claro). Pois, eu não sei - não faço ideia nem nunca experimentei estar um dia todo de pé (mesmo que quisesse, vocês entendem que não dá não é?) Mas, ocorre-me dizer que tudo o que é feito em excesso corre mal: incluindo estar sentada muitas horas...
Imaginem mais uma vez o que é andar numa cadeira de rodas, desde sempre. "Ah, já deves estar mais do que habituada". É isso, vamos começar por aí.
Não andar implica várias coisas. Imaginem, portanto, que além de estarem numa cadeira de rodas - muitas vezes - existem coisas que estão em locais não compatíveis com a vossa altura...hum...até aqui não me parece muito mau. As casas definitivamente não foram feitas para miniaturas de gente (e se a minha mãe também é baixinha) o que fazer? Acomodar-me e pôr as coisas a jeito, é o que se pode fazer.
Agora vamos a outro cenário: agarro-me ao balcão e levanto-me para desligar o fogão e encosto-me, à cadeira, devidamente travada e...pumba. Vou a sentar-me, ela anda para trás e eu, caio.
Outro cenário, estou a cortar cebolas e uma caí-me; há, claramente que pedir "juntem-me isto por favor". Isto para dizer que podia descrever muitas coisas mas...as primeiras quedas, os primeiros ajuntar de cebolas e repolhos, tudo bem, os primeiros "preciso de ir à casa de banho", também é tranquilo!
Mas, imaginem anos disto?
"Estou cansada, não consigo ter uma vida normal por causa de ti", ouves.
E depois quando segues a tua vida a pessoa é contra porque prefere ter-te debaixo do braço para hastear a bandeira: "Eu sou uma guerreira! Tanto que a ajudo...Vejam lá, é para as idas à casa de banho, é para vestir é para tudo....como fará uma vida sem mim?!"  há sem dúvida formas de o fazer mas...esteja eu com quem estiver ouço outras coisas, como: "Não posso ir deitar-me e ficares aqui, podes precisar de ajuda, dependes de mim", "Estou cansado, já não consigo sozinho(a)!" Tranquilo. Vamos procurar ajuda especializada, penso! 
Mas, não há a porra da ajuda necessária...e é ir vivendo assim. Ouvindo, engolindo, entendendo o desespero dos outros, perante nós, mas termos de engolir o nosso próprio desespero. 
É irmos trabalhar - e quando não nos conseguirmos levantar da cama para cumprir obrigações sermos olhados de lado, bem como ficarmos prejudicados devido às "n" consultas a que temos de ir - é chegar a casa novamente e ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiamos ao chão - eu e os legumes. Mas 90% das vezes cai-se.
Hoje também foi dia de trabalho mas...ao chegar a casa não vou ficar de volta dos repolhos, das cenouras e dos alhos e rezar para que não caiam ao chão e que eu não caia também!
Hoje vou descansar. Descansar das quedas, da descrença no ser humano e de todo um sistema...Hoje sinto o frio de um soalho flutuante a imitar sei lá o quê; sinto o frio dos azulejos brancos, dos azulejos mais acinzentados onde já caí, sinto o padrão do chão aos quadradinhos vermelhos e pretos da casa da minha avó, como se fosse hoje. A divisão entre cada azulejo continua a ser tão grande quanto a que me magoava os joelhos...como se tivesse caído agora!
Ontem caí...e perdi a conta à quantidade de vezes que isso já me aconteceu. E, se há dias em que realmente me acostumo a tais coisas, hoje estou completamente cansada!

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Amanhã é outro dia...