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Sem Querer Quero

Eutanásia

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Não, não ia falar disto. Acho que não tenho conhecimento cientifico para tal discussão, no entanto, ao pensar melhor, "descobri" que se calhar tenho conhecimento de causa suficiente (a nível pessoal) para me aventurar a mergulhar de cabeça neste assunto.

Ao contrário de muitas pessoas -  e à semelhança de muitas outras - nasci com uma condição física que me permitiu, em muitas alturas, pensar sobre o significado da vida e da morte! E, isso permitiu--me muitas vezes desejar tanto viver quanto noutras desejar também o oposto. Não, não digo isto "só" porque não ando. Digo isto porque, precisamente, não andar acarreta outras situações muito desagradáveis - sei, por isso mesmo, o que é depender de terceiros desde que nasci: seja para ir à casa de banho, para tomar duche ou para mudar de roupa!
Não andar não é o fim do mundo, não é mesmo mas...depender e precisar constantemente da ajuda de terceiros para (reforço): ir à casa de banho, tomar duche e mudar de roupa às vezes parece-me que, isso sim, é o fim do mundo! Porque penso assim? Eu explico. Porque os que cuidam de nós podem amar-nos muito mas...têm de ter direito a viver também a sua vida! Ninguém, seja nosso pai, mãe, companheiro ou vizinho tem a obrigação de nos cuidar ad aeternum. "Ah, mas os teus pais é que te puseram no mundo (...), o teu companheiro quando te conheceu já sabia que eras assim (...)  temos de ser solidários, todos precisamos de algum tipo de ajuda durante a vida e, essas pessoas, quem te cuida, tem essa obrigação".
Sabem o que eu vos digo? Isso são tudo balelas de quem nunca passou por isto. Passar 20 anos (ou até mais) a tomar conta de um filho ou companheiro, ou até um pai com estas limitações (ou mesmo pior do que estas) é MUITO esgotante, aflitivo...diria até cansativo, física e psicologicamente.
E, não, o amor não resolve tudo!
Que relação tem este assunto com a eutanásia? Digamos que estão interligados. No meu ponto de vista, é claro.
Já pensaram no quanto é desesperante estarmos conscientes das nossas limitações [sejam elas quais forem] e vermos os outros anos e anos seguidos a sofrer por nossa causa? Consegue ser mesmo muito desesperante! Sabem quantas vezes [muitos e até os meus] pais disseram aos seus filhos ou pensaram para si "o que será dele/a quando morrermos? Com quem ficará?" Muitos. Os meus pais até chegaram a verbalizar isso mesmo em tom de desabafo.

"Mas e então, queres com isto dizer que preferias morrer?" perguntam-me vocês. Não, não quero! Mas, aceito que, pessoas conscientes do seu estado, pessoas mentalmente sãs podem e devem escolher o seu destino. Isso do "não pedi para vir também não peço para ir" é uma treta!
Existem pessoas que ficam muitas vezes perturbadas com situações que lhes acontecem ao longo da vida e que para os quais morrer seria um alivio: pessoas alvo de violações, depressões fortes, pessoas que se vêm de um momento para o outro privadas do seu bem estar físico ou psicológico. Por que razão devem essas pessoas deslocar-se do seu país para morrer com dignidade noutro onde já é permitido faze-lo? Eu não vejo nenhuma razão para tal coisa! Além de que, havendo dinheiro e opções noutro ponto do mundo só estamos, digamos, a adiar o inevitável.
Outra questão se coloca: "Mas fulano vive acamado e é feliz" mas, o que sabemos nós em relação à felicidade dos outros? Porque razão algumas pessoas são capazes de superar as adversidades da vida e outras se afundam em depressões? Será porque não somos todos iguais e não toleramos todos os mesmos tipos de intensidades e de dores? Acredito plenamente!
Se já pensei que seria melhor morrer? Já. Se há dias em que viver é uma aventura prazerosa e boa? Também os há, claro. Mas, todos temos de o direito de ter opção de escolha. 

E é por isso que essa escolha deve ser sensata e muito ponderada, diria até, estudada!

...Como já vos escrevi aqui o meu psicoterapeuta já me disse que só me poderá ajudar tirando-me, primeiro do que tudo, do estado de sobrevivência em que vivo..."Que estado é esse?" perguntam-me vocês.
Não, não passo fome, não, não vivo na rua. Tenho comida, carro, casa para habitar...que luxo, já viram? Mas, eu e outras pessoas (muitas vezes) não temos algo também muito importante: a sorte de poder viver com dignidade. Temos de viver  à custa da bondade alheia e de uma estrutura, de uma rede, de um suporte fortes que...nem sempre existem e não estão ao alcance de todos!
Se podemos  e devemos, em certa parte, responsabilizar o Estado por isso? Claro que sim! Todos devíamos ter direito aos cuidados de saúde mediante as nossas necessidades, todos quanto precisamos e não temos poses devíamos ter ajuda psicológica e física gratuita. Obviamente!

Mas, a eutanásia é uma questão de dignidade e de sobrevivência, repito...mas, também de direito à escolha.
Muitos há que mesmo com todo o dinheiro e recursos à sua disposição preferiam morrer...lá sabem eles porquê. Suponho eu que, em alguns casos, ter ajuda física e psíquica, ter casa, comida e roupa lavada não é tudo...em calhando, para essas pessoas, viver é com certeza estar no seu estado mais pleno de felicidade, estar na posse de uma condição física invejável e ter a oportunidade de poder concretizar os seus sonhos todos e...não ser dependente. E vem a vida, dona de si, e tira-nos essas possibilidades!

Se há quem lhe dê [à vida] outro rumo depois de acontecimentos inesperados há, também, quem prefira desistir! E isto não é uma discussão sobre quem é mais ou menos forte: quem tem a coragem de desistir ou quem não a tem? Isto é, acima de tudo, saber-se o que se quer e como se quer: morrer enquanto é tempo de o fazer, com dignidade, ou esperar que a vida nos leve...
Se isso é razão para a despenalização da eutanásia, na minha humilde opinião, sim! Cada um de nós devia ter direito a poder decidir o seu futuro [e para isso não precisar de se enrolar numa corda ou atirar-se ao rio].Repito, ninguém o devia poder fazer de forma leviana mas...os entendidos na área [os médicos] melhor do que ninguém deveriam poder ajudar as pessoas nestas situações! Sendo que a pessoa em causa teria sem discussão a última palavra! É disto que estamos a falar!

Melhorar os cuidados paliativos, para mim, nada tem a ver com esta questão. Como disse e repito: [Para alguns] viver é com certeza estar no seu estado mais pleno de felicidade, estar na posse de uma condição física invejável e ter a oportunidade de poder concretizar os seus sonhos todos e...não poucas as vezes, a vida vem e tira-nos essas possibilidades...e já nada podemos fazer quanto a isso! Quem tem o direito de julgar esta ou aquela visão como sendo a certa ou a errada?

Vermos alguém que amamos a definhar lentamente sem podermos fazer nada, porque o Estado não deixa essa pessoa decidir por si, é essa a opção? Eu acho que não. Nunca. 

Como li aqui: "Rebater os argumentos dos que defendem a despenalização da eutanásia com a necessidade de melhorar os cuidados continuados é discutir o "doente" e não a "pessoa" e o seu livre arbítrio. Um "doente" depende da ciência, de outras pessoas e das respostas - ou da falta delas - que o Estado lhe dá. Uma "pessoa", quando está no pleno uso das suas capacidades intelectuais, vive das opções que faz, que resultam, naturalmente, das suas convicções (...) mas esse é um dos fatores que lhe dá sentido à vida: o poder da decisão".

 

Reforço tudo o que disse aqui também com vários exemplos de casos de eutanásia. 

 

 

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